A Luz

 
 


 
 


Autoria: Galahad

Existia uma vila muito ao norte, onde seus moradores viviam da pesca e da caça.

Nesta vila havia um homem chamado Phelys, um homem triste e cansado. Phelys
havia sido criado bem longe dali, em uma grande cidade, mas sua esposa e filha
um dia sofreram um grave acidente e faleceram.

Ele ficou muito triste e desistiu de viver, foi para o local mais longe que conseguiu
encontrar, justamente essa vila.

Todos os dias as pessoas da vila se reuniam em volta da fogueira e ouviam
as histórias dos mais velhos. As histórias falavam das aventuras da Grande
Deusa e do Grande Deus. Os anciões contavam histórias de caça e pesca,
histórias de guerras e histórias alegres. Phelys sempre ia às reuniões, conversava
com algumas pessoas e sempre se lembrava de sua esposa e sua querida filha.

Um dia, convidaram Phelys para entrar em um dos pequenos ritos do vilarejo,
o rito em agradecimento a Grande Deusa. Nesse rito eles agradeciam pela
caça e pesca que ela produziu durante todo o ano. Meio sem querer, ele
foi caminhando para o centro do vilarejo na noite da celebração. Exatamente
naquele dia seria o aniversário de casamento dele, então a tristeza em seu
coração era tão grande, que preferiria ficar em casa. Resolveu ir mesmo assim.

Chegando no centro da vila, viu alguns dos moradores, mas não havia festa.
Estranhou. Então uma das pessoas veio lhe contar que uma menina, filha
de um dos pescadores, havia ido para a floresta na tarde daquele dia e não
tinha voltado ainda.

Ele se ofereceu para ir procurar também. Pegou uma tocha e seguiu
para o rumo onde os outros homens haviam ido.

Ele andou por muito tempo. Não encontrava nada e a sua tocha já estava
gasta e quase apagando. Então ouviu um barulho.

Virou-se de uma vez e viu que olhos o observavam. Sentiu medo.

Talvez fosse hora de partir dessa vida, de encontrar sua esposa e filha.
Mas se fosse como estava aprendendo ultimamente com os moradores da vila,
o ciclo continuaria, elas voltariam para esta terra.

Virou novamente para frente e começou a correr.

Correu por muito tempo, no meio da mata, até encontrar uma
caverna com uma pequena entrada.

Lá dentro ouviu barulhos.

Entrou e viu a menina lá dentro, cantando baixinho.

- Oi. - disse Phelys.

- Olá, eu sabia que você vinha.

- Você está bem?

- Torci o meu pé e não consegui voltar. Estava aqui dentro
vendo as imagens da Deusa.

Phelys apontou sua tocha para a parede e viu muitas imagens
femininas, enquanto a menina continuou a falar.

- Eu sabia que você vinha.

- Sabia?

- Sim... eu vi a Deusa... ela estava junto com uma outra mulher,
elas me disseram que você viria.

- Como assim? - Perguntou Phelys meio desconfiado.

- Tome isso - Disse a menina entregando uma pequena flor para
Phelys. Era uma flor que nascia dentro da caverna. - Essa é a flor
que a mulher que estava junto com a Deusa pediu para te entregar.
Ela disse que você se lembraria dela sempre que quisesse.

Phelys cheirou a flor e começou a chorar... Era o mesmo perfume
que sua esposa costumava usar.

Entre lágrimas ele perguntou:

- Como você sabe da flor?

- Eu não sabia... Foi a mulher que me contou... A Deusa disse
que eu não me preocupasse e que esperasse que alguém viria
me buscar. Ela disse que eu tinha algo a fazer hoje, que era
minha obrigação estar aqui. Depois ela disse que quem viria era
uma pessoa muito especial, e que uma de suas filhas gostava
muito dele. Era você. - disse a menina sorrindo.

Neste instante Phelys viu uma grande luz clara no fundo da
caverna e foi até lá. Viu uma mulher de costas, abaixando
para pegar uma flor e ouviu em seu coração o seguinte:

"Meu amado, todos nós viemos da Deusa e para Ela voltaremos.
Não fique triste, continue a viver, sempre te amei e sempre te
amarei. O que me aconteceu não foi por acaso, nem culpa sua.
Todos carregamos o que somos, e as coisas que acontecem conosco
são o retorno do que fazemos em nossas vidas. A Deusa é Justa e
meu tempo já havia acabado. Sempre que sentir saudades minhas,
venha até aqui e você saberá duas coisas: que eu te amo e que a
Deusa será sempre justa com você.".

Depois disto, o forte cheiro da flor tomou conta do local.

Phelys voltou, pegou a menina em seu ombro e ela foi lhe
ensinando o caminho de volta. Voltou ao vilarejo, com os
olhos cheios de lágrimas e muita alegria no coração.

Ele ainda passou algum tempo no vilarejo, mas resolveu
voltar para a sua cidade.

Uma vez por ano, até hoje, Phelys volta àquele vilarejo, na mesma
data. Quando chega, cumprimenta alguns conhecidos e vai até a
caverna, onde sempre se lembra de duas coisas: que o amor pode
ultrapassar qualquer barreira e que a Deusa está presente em tudo que existe.

Fonte: Circulo Sagrado